O Ceará prepara a expansão do cultivo de algodão de fibra longa, considerado de alto valor agregado e com potencial para competir com variedades reconhecidas internacionalmente, como o algodão egípcio e o pima peruano. Segundo o Governo do Estado, testes realizados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) validaram a qualidade da fibra cearense, que pode ser utilizada na fabricação de tecidos finos.
A iniciativa faz parte de um projeto de retomada da cotonicultura, atividade que já ocupou posição de destaque na economia estadual. Para incentivar a produção comercial, o governo informou ter investido R$ 5 milhões na aquisição de sementes selecionadas, que deverão ser distribuídas a produtores rurais.
A nova etapa do programa está prevista para começar em janeiro de 2027, com a participação de agricultores de 100 municípios cearenses. Entre as regiões prioritárias estão o Sertão Central, os Inhamuns, o Sertão de Crateús, o Vale do Jaguaribe, o Centro-Sul e o Cariri.
Os detalhes foram apresentados nesta quarta-feira (14), durante o Congresso Internacional da Indústria Têxtil, realizado no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza.
Fibra longa pode valorizar algodão produzido no Ceará
Uma das principais características do algodão cultivado no estado é o comprimento de suas fibras, fator importante para a produção de fios e tecidos de maior qualidade. De acordo com Silvio Carlos, secretário executivo do Agronegócio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE), as condições de luminosidade do Ceará contribuem para as características da fibra.
O gestor afirmou que os testes da Embrapa confirmaram sua qualidade e indicaram potencial de utilização pela indústria têxtil fina, especialmente na fabricação de tecidos para camisaria. A comparação com os algodões egípcio e pima peruano está relacionada às características da fibra e ao seu potencial comercial. Entretanto, isso não significa que o produto cearense já tenha alcançado a mesma participação desses concorrentes no mercado internacional.
A proposta é utilizar a qualidade da matéria-prima como diferencial para ampliar o valor agregado da produção agrícola estadual.
Programa vai ampliar plantio para 100 municípios em 2027
O projeto de revitalização da cotonicultura começou a ganhar escala em 2026, quando o Governo do Ceará implantou uma experiência inicial em 18 municípios. Segundo o secretário do Desenvolvimento Econômico, Fábio Feijó, a nova fase pretende ampliar o alcance do programa e estimular a participação de agricultores de diferentes regiões.
O cronograma prevê a distribuição de sementes e a abertura da nova janela de plantio em janeiro de 2027. O Sertão Central aparece entre as áreas prioritárias da expansão, ao lado de outras regiões com tradição agrícola e potencial para o cultivo do algodão. Na primeira etapa do programa, municípios como Itatira, Pedra Branca, Quixadá e Quixeramobim integraram a relação de localidades contempladas.
Retomada busca recuperar tradição do ouro branco cearense
O algodão foi uma das principais atividades econômicas do Ceará durante grande parte dos séculos XIX e XX. Conhecido como ouro branco, o produto movimentou a agricultura, o comércio e a indústria, gerando renda em municípios do interior e contribuindo para a formação econômica de diferentes regiões.
Entretanto, a expansão do bicudo-do-algodoeiro, praga que compromete o desenvolvimento das lavouras, provocou graves prejuízos à produção cearense a partir da década de 1980. A crise se aprofundou nos anos seguintes, acompanhada por dificuldades econômicas e mudanças na organização da cadeia produtiva nacional.
Com o avanço da tecnologia agrícola, o Governo do Ceará pretende recuperar parte dessa atividade utilizando sementes selecionadas, estudos técnicos e métodos de cultivo voltados ao aumento da produtividade. A retomada também busca reconstruir a ligação entre agricultores, beneficiadores, indústrias têxteis e empresas de confecção.

Projeto pretende conectar agricultura e indústria de roupas
Além de ampliar o plantio, o governo pretende estimular a transformação do algodão dentro do próprio estado. A estratégia é integrar as etapas de produção agrícola, fiação, tecelagem e confecção de vestuário, criando condições para que a matéria-prima cultivada no Ceará seja aproveitada pela indústria local.
Nesse contexto, está sendo preparado, em parceria com a Vicunha Têxtil, o programa Do Campo ao Guarda-Roupa. A iniciativa também deverá contar com o apoio do Sistema Fiec e da Fecomércio, buscando aproximar produtores, empresas e profissionais qualificados.
Segundo Fábio Feijó, a proposta inclui estimular a instalação de pequenas unidades de confecção no interior, além de fortalecer as grandes indústrias que já atuam no estado. O objetivo é ampliar a circulação de recursos ao longo da cadeia produtiva, desde o cultivo até a fabricação de peças de vestuário.

Produtividade e uso da água estão entre os desafios
A expansão da cotonicultura também dependerá das condições de cultivo, do acesso à tecnologia e da viabilidade econômica para os agricultores. Silvio Carlos afirmou que o algodão apresenta vantagens relacionadas ao consumo de água e ao retorno financeiro, em comparação com culturas como milho e soja.
Entretanto, os resultados podem variar conforme a região, o sistema de produção, a disponibilidade hídrica, o manejo agrícola e os preços praticados no mercado. A adoção de técnicas adequadas será especialmente importante nas áreas do semiárido cearense, onde a irregularidade das chuvas representa um desafio recorrente.
Além disso, o controle de pragas, incluindo o bicudo-do-algodoeiro, continua sendo um aspecto relevante para a sustentabilidade da produção. O programa estadual aposta na utilização de sementes de alto rendimento e no conhecimento técnico acumulado por instituições de pesquisa para apoiar a retomada da atividade.
Indústria têxtil enfrenta concorrência e queda no consumo
Apesar das oportunidades relacionadas à produção de algodão de maior qualidade, a indústria brasileira de tecidos e confecções enfrenta desafios econômicos. Durante o Congresso Internacional da Indústria Têxtil, o diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, destacou a importância do Ceará como polo produtivo do setor.
Segundo dados apresentados pela entidade, o consumo interno de produtos têxteis recuou 1,4% nos últimos 12 meses, enquanto as importações cresceram. No mesmo período, as importações convencionais em contêineres aumentaram mais de 40% em volume. Já o volume de pequenas encomendas do comércio eletrônico registrou crescimento de 80% nos três meses seguintes às mudanças na tributação.
Para a Abit, o fortalecimento da indústria nacional depende de investimentos, inovação e ganhos de produtividade. Nesse cenário, a produção local de algodão de fibra longa poderá representar uma oportunidade de diferenciação, embora sua consolidação dependa da capacidade de atender às exigências da indústria e do mercado.





