Os supermercados do Ceará estudam mudanças nas escalas de trabalho, nos horários de funcionamento e na utilização de tecnologias para se adaptar ao fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador exerce suas atividades durante seis dias e tem direito a uma folga semanal.
As alternativas ganharam destaque após a aprovação e promulgação da Emenda Constitucional 141, que estabelece dois dias de descanso semanal remunerado e prevê a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, com um período de transição para as empresas.
Segundo informações divulgadas nesta quarta-feira (21), pelo Diário do Nordeste, o setor supermercadista cearense avalia diferentes estratégias para reorganizar suas operações, especialmente nos estabelecimentos que funcionam diariamente, incluindo fins de semana e feriados.
Entre as possibilidades estão o revezamento de folgas, a contratação de novos funcionários, o investimento em automação e a revisão dos horários de abertura e fechamento das lojas. Entretanto, as medidas ainda estão em estudo e não representam mudanças já definidas para os supermercados.
A discussão envolve tanto grandes redes quanto pequenos estabelecimentos comerciais, que enfrentam realidades diferentes em relação ao número de funcionários, aos custos operacionais e à capacidade de investimento.
Supermercados estudam folgas entre segunda e quarta-feira
Uma das principais alternativas avaliadas pelo setor é a criação de escalas de revezamento dinâmicas, que permitam distribuir os dois dias de descanso semanal sem comprometer o atendimento aos consumidores.
De acordo com o secretário executivo da Associação Cearense de Supermercados (Acesu), Antonio Sales, a proposta considera concentrar parte das folgas nos dias de menor movimento, especialmente entre segunda e quarta-feira.
A estratégia permitiria manter um número maior de funcionários trabalhando nos períodos de maior demanda, como sextas-feiras, sábados e domingos. Nesse modelo, as equipes seriam organizadas de maneira alternada, garantindo o descanso dos trabalhadores e buscando preservar o funcionamento das lojas.
O planejamento das escalas dependerá de fatores como o movimento de clientes, a quantidade de empregados e as necessidades operacionais de cada estabelecimento. A nova legislação não determina que os dois dias de descanso ocorram obrigatoriamente aos fins de semana, o que permite a organização de escalas conforme as regras trabalhistas aplicáveis.
Horários de abertura e fechamento também podem passar por mudanças
Outra possibilidade analisada pelos supermercados cearenses envolve a revisão dos horários de funcionamento, principalmente nos períodos em que a circulação de consumidores é menor. O setor considera a possibilidade de reduzir o atendimento em horários extremos, como no início da manhã ou no fim da noite, dependendo das características de cada loja.
A intenção seria concentrar a força de trabalho nos horários de maior movimento, evitando manter equipes numerosas durante períodos de baixa demanda. Entretanto, não existe uma decisão geral anunciada sobre redução do horário de funcionamento dos supermercados no Ceará.
As propostas permanecem em avaliação e poderão variar conforme o porte das empresas, a localização das unidades e o comportamento dos consumidores. Assim, eventuais mudanças não significam necessariamente que todas as lojas passarão a abrir mais tarde ou fechar mais cedo.
Automação e inteligência artificial entram nos planos do setor
O investimento em automação e inteligência artificial também aparece entre as estratégias consideradas para compensar os efeitos da redução da jornada de trabalho.
Grandes redes supermercadistas possuem maior capacidade financeira para adotar tecnologias que reduzam a necessidade de intervenção humana em determinadas atividades.
Entre as possibilidades de modernização estão sistemas automatizados de atendimento, ferramentas digitais de gestão e soluções tecnológicas capazes de otimizar processos operacionais.
Esses investimentos podem contribuir para melhorar a produtividade e reorganizar tarefas que atualmente dependem de equipes presenciais. Por outro lado, a ampliação da automação também levanta discussões sobre seus possíveis efeitos na quantidade e no perfil dos postos de trabalho.
A situação é diferente nos pequenos supermercados, que geralmente contam com equipes mais enxutas e possuem menor capacidade de investimento. Para esses estabelecimentos, a adaptação poderá exigir maior reorganização interna e planejamento financeiro.
Custos com funcionários podem aumentar entre 15% e 20%, aponta estimativa
A redução da jornada semanal também preocupa representantes do setor supermercadista em relação aos custos das empresas.
Segundo Antonio Sales, entidades como a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) projetam que a mudança poderá provocar um aumento imediato de 15% a 20% nos custos da folha de pagamento.
A estimativa está relacionada à necessidade de reorganizar equipes, manter o atendimento e, em determinadas situações, contratar novos profissionais para cobrir os períodos de descanso.
O impacto financeiro, entretanto, poderá variar conforme o tamanho da empresa e a estrutura de funcionamento de cada estabelecimento. Supermercados com grande número de funcionários poderão utilizar diferentes combinações de revezamento, contratação e tecnologia.
Já pequenos negócios poderão enfrentar maiores dificuldades para ampliar equipes ou investir em equipamentos. O aumento das despesas também poderá pressionar os custos operacionais do setor. Contudo, não há confirmação de reajustes generalizados nos preços dos produtos em razão da mudança na jornada.

Fim da escala 6×1 pode gerar novas contratações, mas impacto será desigual
A necessidade de garantir dois dias de descanso por semana poderá estimular a abertura de novas vagas de emprego em estabelecimentos que precisam manter suas atividades durante toda a semana. A possibilidade, no entanto, não significa que todos os supermercados contratarão novos funcionários.
Segundo a Acesu, a geração de empregos poderá ocorrer de maneira desigual, considerando a capacidade financeira das empresas e os ajustes necessários para manter as operações. Enquanto algumas redes poderão ampliar suas equipes, outras deverão priorizar mudanças nas escalas, redistribuição de tarefas e investimentos em produtividade.
Também existe a preocupação de que o aumento das despesas reduza a capacidade de contratação de determinados estabelecimentos. A reorganização poderá afetar especialmente funções ligadas ao atendimento, reposição de mercadorias, operação de caixas e outras atividades essenciais à rotina dos supermercados. As decisões dependerão da avaliação de cada empresa durante o período de adaptação às novas regras.
Quando começa a valer a nova jornada de trabalho?
A Emenda Constitucional 141 foi aprovada pelo Senado Federal na quarta-feira (14) e promulgada pelo Congresso Nacional na sexta-feira (16). A mudança estabelece a substituição progressiva da jornada semanal de 44 horas pelo limite de 40 horas, além de assegurar dois dias de repouso semanal remunerado.
O cronograma prevê uma implementação gradual, permitindo que empresas e trabalhadores se adaptem à nova organização. Confira as principais etapas:
A redução da jornada ocorre sem diminuição do salário contratual, conforme as regras estabelecidas pela mudança constitucional. A nova organização exige que os empregadores revisem escalas e procedimentos internos para cumprir os limites de jornada e os períodos de descanso.


