A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) investiga 13 notificações de uma doença ocular rara em pessoas que utilizavam medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras.
- O que é a doença investigada?
- Outros 74 registros envolvem problemas visuais
- Casos envolvem semaglutida e tirzepatida
- Fabricantes se manifestaram sobre investigação
- Anvisa acompanha segurança das canetas emagrecedoras
- Venda exige retenção de receita
- Usuários não devem interromper tratamento por conta própria
Os registros envolvem pacientes que apresentaram neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA), condição que afeta o nervo óptico e pode provocar perda súbita e permanente da visão.
As notificações analisadas estão relacionadas ao uso de Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro, medicamentos indicados, conforme cada produto, para condições como diabetes e obesidade.
Entretanto, a Anvisa faz uma ressalva importante: a presença do medicamento e da doença na mesma notificação não significa que o remédio tenha provocado o problema ocular. Os 13 registros continuam sendo tratados como suspeitos e passam por avaliação de farmacovigilância.
O que é a doença investigada?
A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, também conhecida pela sigla NOIA, ocorre quando há uma redução ou interrupção do fluxo sanguíneo nos pequenos vasos responsáveis por irrigar a parte anterior do nervo óptico.
A condição pode ser comparada, em termos vasculares, a uma espécie de infarto do nervo óptico. Entre suas características está a possibilidade de perda súbita e indolor da visão. Em determinados casos, o comprometimento visual pode ser permanente.
Por isso, os registros envolvendo usuários desses medicamentos passaram a integrar o acompanhamento realizado pelas autoridades sanitárias.
Outros 74 registros envolvem problemas visuais
Além dos 13 casos suspeitos de NOIA, o painel de farmacovigilância da Anvisa apresenta 74 registros de outras complicações visuais em usuários de medicamentos dessa classe.
Novamente, a existência dessas notificações não permite afirmar automaticamente que as canetas causaram os problemas relatados.
Os sistemas de farmacovigilância recebem relatos de acontecimentos registrados durante ou após o uso de medicamentos. Posteriormente, especialistas analisam as informações para verificar se existe evidência suficiente de uma possível relação causal.
Dessa forma, as notificações funcionam como um instrumento para identificar sinais de segurança que precisam de investigação.
Casos envolvem semaglutida e tirzepatida
Entre os medicamentos mencionados nas notificações estão produtos à base de semaglutida, como Ozempic, Wegovy e Rybelsus. Também aparece o Mounjaro, que utiliza a tirzepatida como princípio ativo.
Esses medicamentos ganharam ampla utilização nos últimos anos, principalmente devido aos efeitos relacionados à redução de peso. No entanto, cada produto possui indicações específicas aprovadas pelas autoridades sanitárias.
Além disso, a Anvisa reforça que os medicamentos dessa classe precisam ser utilizados sob prescrição e acompanhamento de profissional habilitado.
Fabricantes se manifestaram sobre investigação
A Novo Nordisk, fabricante de Ozempic, Wegovy e Rybelsus, informou que análises de seus ensaios clínicos não identificaram aumento da ocorrência da NOIA entre pacientes que receberam semaglutida em comparação com aqueles que utilizaram placebo.
Segundo a empresa, o balanço entre benefícios e riscos dos medicamentos permanece favorável quando utilizados conforme as indicações aprovadas.
Já a Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, informou que acompanha continuamente os dados relacionados à segurança de seus medicamentos, inclusive possíveis eventos oftalmológicos.
A empresa afirmou ainda que mantém diálogo com autoridades regulatórias durante o processo de revisão das informações de segurança.
Anvisa acompanha segurança das canetas emagrecedoras
O acompanhamento dos possíveis efeitos adversos dos agonistas de GLP-1 não começou agora. A Anvisa já registrou milhares de notificações relacionadas a medicamentos dessa classe nos últimos anos. Entre dezembro de 2018 e março de 2026, foram contabilizadas 2.965 notificações de eventos adversos envolvendo agonistas de GLP-1.
A semaglutida apareceu em 58,7% dos relatos registrados nesse período. Entretanto, a própria Agência destaca que esses números representam notificações espontâneas de suspeitas e não significam que todos os eventos tenham sido provocados pelos medicamentos.
Além disso, em 2025, a Anvisa já havia emitido alerta relacionado a uma rara perda de visão associada à semaglutida.
Venda exige retenção de receita
Desde junho de 2025, medicamentos agonistas de GLP-1 estão sujeitos a retenção de receita nas farmácias e drogarias brasileiras.
A prescrição deve ser emitida em duas vias e possui validade de até 90 dias. Uma delas permanece no estabelecimento responsável pela venda.
A medida busca reduzir o uso indiscriminado e ampliar o controle sobre medicamentos que ganharam grande popularidade para perda de peso.
Além disso, a Anvisa vem intensificando a fiscalização de produtos irregulares, manipulados ou comercializados sem registro sanitário.
Usuários não devem interromper tratamento por conta própria
A investigação dos 13 casos não representa uma orientação para que pacientes suspendam medicamentos prescritos sem avaliação profissional.
Quem utiliza medicamentos como semaglutida ou tirzepatida deve manter acompanhamento médico e comunicar qualquer alteração relevante percebida durante o tratamento.
No caso de mudança súbita ou perda de visão, a recomendação é buscar atendimento médico imediatamente para avaliação adequada.
Enquanto isso, a Anvisa mantém o acompanhamento das notificações para determinar se os dados disponíveis indicam relação entre os medicamentos e a ocorrência da neuropatia óptica.
Até que essa avaliação avance, portanto, os 13 casos permanecem classificados como suspeitos, sem confirmação de que as canetas emagrecedoras tenham provocado diretamente a perda de visão.