A Festa de São Francisco das Chagas, em Canindé, viveu duas noites marcadas por reflexões sobre a espiritualidade franciscana e sua presença na vida cotidiana. Nesta quarta-feira (14) e nesta quinta-feira (15), a Praça dos Romeiros recebeu devotos para a sétima e a oitava noites de novena, que abordaram o cuidado com a Criação e a oração como caminho para a escuta de Deus.
As celebrações foram conduzidas por frei Olávio José Dotto, OFM, ministro provincial da Província Franciscana São Francisco de Assis, do Rio Grande do Sul, e frei Marconi Lins de Araújo, OFM, vigário provincial da Província Franciscana de Santo Antônio do Nordeste do Brasil.
As mensagens reforçaram o tema central da festa deste ano, “São Francisco: da vida até a morte, um chamado à santidade”, em sintonia com os 800 anos do Trânsito de São Francisco de Assis, que recordam sua passagem da vida terrena para a eternidade, em 1226. Ao longo das duas noites, os frades convidaram os romeiros a transformar a devoção em atitudes concretas, tanto na relação com a natureza quanto na convivência com outras pessoas.
Sétima novena convida fiéis a cuidar da Casa Comum
A sétima noite de novena, realizada na última quarta-feira (14), teve como destaque o cuidado com a Criação e a responsabilidade humana diante dos desafios ambientais. A celebração homenageou o estado de Alagoas e recebeu como convidada a Diocese de Iguatu, no Ceará. Também contou com representantes de movimentos sociais, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), de sindicatos e da Pastoral da Ecologia Integral.
Na motivação inicial, o reitor do Santuário, frei Gilmar Nascimento, pediu que as luzes acesas na Praça dos Romeiros também despertassem a consciência dos presentes para a preservação ambiental. O religioso destacou a importância de atitudes simples, como evitar o descarte de garrafas plásticas e outros materiais no espaço de celebração.
A reflexão foi inspirada na encíclica Laudato Si’, do papa Francisco, e na Carta de São Paulo aos Romanos, relacionando a fé cristã à responsabilidade pela preservação da vida.

Frei Olávio relaciona santidade, natureza e justiça social
Durante a pregação, frei Olávio José Dotto destacou que a santidade não deve ser compreendida apenas como a realização de grandes feitos, mas também como uma experiência construída por meio de pequenas atitudes de amor. O religioso recordou o exemplo de Santa Teresinha e a trajetória de conversão de São Francisco de Assis, ressaltando que o santo desenvolveu uma relação de fraternidade com todas as criaturas.
Ao abordar a responsabilidade ambiental, o frade afirmou que a espiritualidade franciscana exige uma mudança na maneira como as pessoas se relacionam com o planeta. “O caminho de santidade também está no cuidado com a Casa Comum”, declarou, ao incentivar os devotos a adotarem hábitos mais conscientes.
Frei Olávio também relacionou a preservação ambiental à justiça social, destacando que os efeitos das mudanças climáticas atingem principalmente as populações mais vulneráveis. Morador de Porto Alegre, o frade recordou as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul e chamou a atenção para a situação das famílias que dependem da terra, da chuva e das colheitas.
Segundo ele, a defesa do meio ambiente não pode ser separada da dignidade humana e das condições econômicas e sociais. A mensagem convidou os fiéis a rever hábitos de consumo e a cultivar um estilo de vida mais simples, inspirado na experiência de São Francisco.

Cântico das Criaturas inspira compromisso com a natureza
Um dos momentos centrais da sétima novena foi a referência ao Cântico das Criaturas, composição de São Francisco de Assis que expressa o louvor a Deus por meio dos elementos da natureza. Na espiritualidade franciscana, o sol, a lua, a água, o vento e a terra são reconhecidos como parte de uma mesma Criação, unidos por uma relação de fraternidade.
Frei Olávio recordou que São Francisco desenvolveu essa sensibilidade a partir de sua experiência de conversão e de sua proximidade com os pobres e os marginalizados. O pregador também mencionou os últimos momentos da vida do santo, quando ele acolheu a morte com serenidade e espírito de fraternidade.
Ao final da reflexão, os participantes rezaram o Cântico das Criaturas, reafirmando o compromisso de cuidar da Casa Comum. A celebração prosseguiu com a Adoração ao Santíssimo Sacramento, relacionando a espiritualidade eucarística à contemplação de toda a Criação.
A saída do Painel de São Francisco encerrou a noite com o convite para que os romeiros levassem a mensagem para suas famílias e comunidades.


Oitava novena destaca a oração como caminho para ouvir Deus
Nesta quinta-feira (15), a oitava noite de novena voltou a reunir os fiéis na Praça dos Romeiros, desta vez com uma reflexão dedicada à oração e à capacidade de escutar a vontade de Deus. O estado homenageado foi o Piauí, enquanto a Diocese de Quixadá participou como convidada.
A celebração contou com representantes de diferentes grupos e movimentos religiosos, entre eles o Terço da Misericórdia, a Congregação Mariana, o Grupo Mãe Rainha, as Mães Cristãs, o Apostolado da Oração, o Grupo Liturgia das Horas, o Terço das Mulheres e o Movimento Ave-Maria.
As leituras recordaram a experiência espiritual de São Francisco, apresentado por seu primeiro biógrafo, Tomás de Celano, como um homem cuja vida estava profundamente ligada à oração. O Evangelho de São Mateus também inspirou a reflexão, apresentando Jesus em comunhão com o Pai. A partir dessas referências, os fiéis foram convidados a compreender a oração como uma experiência que ultrapassa as palavras e se manifesta na maneira de viver.

Frei Marconi alerta para a dificuldade de escutar em tempos de divisão
Responsável pela pregação da oitava novena, frei Marconi Lins de Araújo destacou que a oração foi fundamental para a transformação espiritual de São Francisco. Segundo o religioso, o santo procurava constantemente compreender a vontade de Deus e encontrava na oração a força necessária para servir aos outros.
Ao recordar os 800 anos do Trânsito de São Francisco, o frade ressaltou que a experiência de conversão do santo começou com a disposição de ouvir o chamado divino. Para frei Marconi, rezar não significa apenas falar com Deus, mas também aprender a escutá-lo.
A reflexão foi ampliada para os desafios da sociedade contemporânea, especialmente diante das guerras, das polarizações políticas e das divisões presentes nas relações humanas. O pregador afirmou que a dificuldade de ouvir o outro compromete a convivência e a construção de um mundo mais fraterno.
Ao apresentar São Francisco como exemplo, destacou que o santo soube escutar não apenas a Deus, mas também os doentes, os pobres e a própria natureza. A mensagem reforçou que a escuta exige abertura, humildade e disposição para transformar atitudes.

Oração deve estar presente nas atitudes do cotidiano
Durante a homilia, frei Marconi também incentivou os romeiros a fazerem da oração uma prática constante. O religioso sugeriu que os fiéis começassem o dia agradecendo a Deus pela vida e reservassem momentos para refletir sobre suas atitudes.
A proposta é compreender a espiritualidade não apenas como uma experiência vivida durante as celebrações religiosas, mas como um compromisso que acompanha as relações familiares, profissionais e comunitárias. Ao recordar o chamado recebido por São Francisco diante do Crucifixo de São Damião, o frade afirmou que os cristãos também são convidados a colaborar na transformação do mundo.
Segundo ele, a oração deve produzir frutos concretos de paz, solidariedade e fraternidade. A mensagem também foi direcionada às novas gerações, com um convite para que crianças e jovens conheçam e deem continuidade à experiência de fé transmitida pelos devotos. Para frei Marconi, a presença dos romeiros em Canindé demonstra que a espiritualidade franciscana continua sendo compartilhada entre famílias e comunidades.
A oitava celebração também foi marcada por momentos tradicionais do novenário, como a apresentação dos pedidos dos fiéis diante do Painel de São Francisco e a recitação da Ladainha de São Francisco. Outro momento significativo foi a última bênção do Santíssimo Sacramento durante o novenário de 2026.


RItos Finais
O encerramento da festa acontece neste sábado (17), com celebrações ao longo do dia. Entre os destaques estão a Missa do Romeiro, às 5h, na Praça dos Romeiros, e a Missa Solene, às 9h, na Quadra da Gruta. Às 17h, a procissão com a imagem de São Francisquinho percorrerá ruas de Canindé, encerrando o ciclo festivo com bênção, agradecimentos e anúncio da Festa de 2027.






