O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) participaram, na noite deste domingo (18), do primeiro debate presidencial do segundo turno das eleições de 2026, promovido pela TV Bandeirantes. O encontro, realizado em São Paulo, foi marcado por questionamentos entre os candidatos, divergências sobre políticas públicas e momentos de tensão que exigiram a intervenção dos mediadores.
Entre os principais assuntos discutidos estiveram a segurança pública, o Sistema Único de Saúde (SUS), o fim da escala de trabalho 6×1, investigações envolvendo pessoas próximas aos candidatos e a relação do Brasil com os Estados Unidos.
O debate ocorreu a uma semana do segundo turno da eleição presidencial, marcado para domingo, 25 de outubro. A mediação ficou sob responsabilidade dos jornalistas Adriana Araújo e Eduardo Oinegue.
Durante os três blocos, Lula e Flávio apresentaram propostas e trocaram críticas sobre suas trajetórias políticas e as administrações federais do PT e de Jair Bolsonaro.
Segurança pública: candidatos apresentam propostas diferentes
A segurança pública foi um dos principais temas do confronto. Flávio Bolsonaro defendeu o endurecimento das medidas contra o crime organizado, incluindo a classificação de facções criminosas como organizações narcoterroristas.
O senador também prometeu, caso seja eleito, criar 500 mil vagas no sistema penitenciário, além de ampliar a utilização de câmeras com reconhecimento facial e adotar medidas mais rigorosas de combate à criminalidade.
Lula, por sua vez, reafirmou a proposta de criar um Ministério da Segurança Pública, com o objetivo de coordenar ações entre o governo federal, os estados e os municípios.
Segundo o presidente, a medida permitiria definir melhor as responsabilidades de cada esfera administrativa e ampliar a participação da União no enfrentamento da violência.
Os candidatos também divergiram sobre as saídas temporárias de presos. Flávio criticou o benefício e questionou Lula sobre sua manutenção. O presidente defendeu a possibilidade de saída para determinados detentos em processo de ressocialização, mas afirmou que condenados por crimes graves não deveriam receber esse benefício.
SUS e pandemia provocam confronto entre Lula e Flávio
O Sistema Único de Saúde (SUS) também esteve no centro do debate. Questionado pelos mediadores, Flávio Bolsonaro afirmou que, se eleito, pretende convidar o médico Cláudio Lottenberg, ligado ao Hospital Israelita Albert Einstein, para assumir o Ministério da Saúde. O candidato do PL disse que sua intenção seria levar um padrão de atendimento semelhante ao da instituição privada para a rede pública.
Lula questionou a proposta e levantou dúvidas sobre uma eventual ampliação da participação privada no sistema. O presidente também criticou a condução da pandemia de covid-19 durante o governo de Jair Bolsonaro.
Flávio respondeu defendendo a atuação do pai diante da crise sanitária e argumentou que o enfrentamento da pandemia apresentou dificuldades por se tratar de uma situação inédita.
Durante a discussão, os candidatos se interromperam, e a mediadora Adriana Araújo precisou intervir para restabelecer as regras de fala.
Fim da escala 6×1 entra no debate presidencial
A recente aprovação do fim da escala de trabalho 6×1 também ganhou espaço no confronto. Flávio Bolsonaro afirmou que mudou de posição sobre a proposta depois de ouvir trabalhadores e declarou ter votado favoravelmente à medida. O senador argumentou que está disposto a rever opiniões quando considera que uma mudança pode trazer benefícios à população.
Lula, por sua vez, criticou a relação do adversário com a realidade dos trabalhadores e dos usuários de serviços públicos. A discussão ocorreu poucos dias após o Congresso Nacional promulgar a Emenda Constitucional nº 141/2026, que estabelece a transição para a escala 5×2, com dois dias de descanso semanal.
Pelas novas regras, a jornada máxima deverá cair inicialmente de 44 para 42 horas semanais, após 60 dias da promulgação, chegando a 40 horas semanais em dezembro de 2027, sem redução salarial.
O tema ganhou destaque na campanha por envolver diretamente a organização do trabalho, a rotina familiar e os custos de adaptação das empresas.

Acusações e investigações envolvendo familiares marcam primeiro bloco
O primeiro bloco teve questionamentos sobre investigações, relações políticas e suspeitas de irregularidades.
Lula cobrou explicações de Flávio Bolsonaro sobre uma negociação envolvendo R$ 134 milhões e o banqueiro Daniel Vorcaro, além de levantar questões sobre relações com pessoas investigadas por crimes e posicionamentos adotados pelo senador durante sua atuação parlamentar. O presidente também questionou o adversário sobre seu voto relacionado à ampliação da licença-maternidade na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Flávio respondeu com críticas ao governo federal e questionamentos sobre Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, citado em investigações relacionadas a suspeitas de tráfico de influência. O candidato do PL também responsabilizou politicamente a gestão petista por irregularidades envolvendo descontos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
As declarações foram apresentadas em meio ao confronto eleitoral. Acusações feitas durante debates não equivalem à comprovação de crimes, e eventuais responsabilidades dependem da apuração das autoridades competentes. As respostas dos candidatos também foram objeto de verificações jornalísticas posteriores, diante de afirmações contestadas sobre investigações e fatos relacionados a governos anteriores.
Lula propõe abertura de sigilos e Flávio questiona patrimônio do presidente
No terceiro bloco, Lula propôs que os dois candidatos apresentassem seus dados bancários e telefônicos às autoridades competentes, incluindo informações de familiares, para permitir a investigação de eventuais irregularidades. A proposta foi apresentada durante uma discussão sobre transparência e suspeitas de corrupção.
Flávio Bolsonaro afirmou não ter nada a esconder, mas não confirmou expressamente que aceitaria a abertura dos sigilos nos termos sugeridos pelo presidente. Em seguida, o senador fez acusações sobre o patrimônio de Lula, sem apresentar comprovação durante o debate.
O confronto reforçou a presença de temas relacionados à integridade pública na disputa presidencial, ao lado das propostas de governo.
Relação com os Estados Unidos e soberania brasileira também entram na discussão
A política externa foi outro ponto de divergência. Lula questionou a relação política da família Bolsonaro com os Estados Unidos e manifestou preocupação com a soberania brasileira, especialmente no aproveitamento de minerais críticos, utilizados na fabricação de baterias e outros produtos tecnológicos. O presidente também criticou iniciativas de integrantes da família Bolsonaro relacionadas a interesses norte-americanos.
Flávio defendeu a cooperação internacional, principalmente no combate ao crime organizado, e negou ter atuado para impor tarifas comerciais contra produtos brasileiros. As divergências envolveram diferentes visões sobre a atuação diplomática do Brasil, as relações comerciais e os limites da cooperação com outros países.
Suspeita de bomba mobiliza polícia após debate na Band
O encerramento do encontro foi seguido por uma ocorrência de segurança nas dependências da emissora. O Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), da Polícia Militar de São Paulo, foi acionado para verificar uma suspeita de bomba em um veículo estacionado no local, que estaria relacionado à equipe de Flávio Bolsonaro.
Durante a operação, jornalistas e convidados foram temporariamente impedidos de deixar a emissora. Após a inspeção, nenhum artefato explosivo foi encontrado, e a área foi liberada. A ocorrência não alterou a realização do debate, que já havia sido concluído.

