Territórios do povo Tremembé, no Ceará, passaram a contar com estações meteorológicas destinadas ao acompanhamento das mudanças climáticas e das condições ambientais das comunidades.
Os equipamentos foram instalados em junho na Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, em Itapipoca, e na comunidade de Queimadas, em Acaraú.
As estações conseguem registrar informações sobre temperatura, umidade do ar, ventos, volume de chuva e pressão atmosférica. Os dados são enviados por satélite para uma plataforma digital e poderão ajudar as comunidades a identificar alterações ambientais ao longo do tempo.
A previsão é que os primeiros conjuntos de informações coletadas sejam disponibilizados entre outubro e novembro.
Monitoramento ajudará comunidades a enfrentar mudanças no clima
As duas estações fazem parte do Projeto Resiliência Comunitária Tremembé no Ceará, desenvolvido pela Associação de Desenvolvimento Local Co-produzido (Adelco).
A escolha dos territórios está relacionada à localização das comunidades em áreas litorâneas consideradas suscetíveis aos efeitos da desertificação e das mudanças climáticas.
A partir dos dados, o projeto pretende desenvolver um plano de adaptação climática para os territórios Tremembé. Entre os principais pontos de atenção está a segurança hídrica.
Com informações mais detalhadas sobre chuva, temperatura e disponibilidade de água, as comunidades poderão planejar ações para enfrentar tanto períodos prolongados de estiagem quanto episódios de chuvas intensas.
Além disso, os dados poderão contribuir para decisões relacionadas à produção de alimentos, preservação da vegetação e organização dos territórios.
Tecnologia será combinada com saberes tradicionais
Um dos diferenciais do projeto é a proposta de combinar informações científicas com os conhecimentos tradicionais do povo Tremembé.
A iniciativa utiliza o chamado monitoramento eco-hidrológico, que busca compreender as relações entre água, solo, vegetação e transformações ambientais.
Assim, os registros feitos pelos equipamentos serão analisados juntamente com a experiência acumulada pelos moradores ao longo das gerações.
Por exemplo, enquanto uma estação pode identificar mudanças no nível de uma nascente ou nos volumes de chuva, moradores mais antigos podem contribuir com informações sobre como aquele mesmo ambiente se comportava décadas atrás. Dessa forma, o projeto pretende unir tecnologia, ciência e memória comunitária.
Comunidades participarão da produção dos dados
O projeto também busca fortalecer a autonomia das comunidades na produção de conhecimento sobre os próprios territórios.
Por isso, moradores serão capacitados para acompanhar, compreender e interpretar os dados produzidos pelas estações meteorológicas.
A proposta difere de modelos de pesquisa nos quais pesquisadores externos entram nos territórios apenas para coletar informações.
Nesse caso, as próprias comunidades deverão participar da construção dos diagnósticos e utilizar os resultados no planejamento de ações locais.
A participação de jovens indígenas também integra o projeto, principalmente na elaboração de diagnósticos relacionados à segurança hídrica e na discussão sobre riscos ambientais.
Mudanças no clima afetam produção de alimentos
As alterações ambientais também podem provocar impactos diretos na agricultura desenvolvida nos territórios Tremembé. A disponibilidade de água, as condições do solo e a preservação da vegetação interferem na produção de alimentos e, consequentemente, na manutenção dos modos tradicionais de vida.
Por isso, o projeto considera atividades relacionadas ao cultivo de produtos como milho, feijão, arroz e amendoim, além de outras práticas desenvolvidas pelas comunidades. A iniciativa também apoia roças comunitárias e ações voltadas à agricultura agroecológica e indígena.
Dados podem subsidiar políticas públicas
Além de ajudar diretamente as comunidades, as informações coletadas poderão servir como subsídio para políticas públicas de adaptação às mudanças climáticas. A expectativa é formar gradualmente uma série de dados capaz de mostrar como as condições ambientais estão se modificando nos territórios.
Esses registros poderão contribuir para identificar riscos relacionados à escassez de água, períodos de seca, chuvas intensas, alterações na vegetação e impactos sobre a agricultura.
A experiência também reforça a participação dos povos indígenas na discussão sobre as mudanças climáticas, especialmente porque essas comunidades mantêm uma relação histórica e direta com os recursos naturais de seus territórios.
Projeto segue até 2027
O Projeto Resiliência Comunitária Tremembé no Ceará começou a ser construído a partir de pesquisas realizadas desde 2023 sobre sistemas alimentares tradicionais e resiliência climática. A atual etapa está prevista para ocorrer entre 2025 e 2027. O projeto conta com financiamento do Fundo Canadense para Iniciativas Locais (CFLI) no Brasil.
Enquanto isso, as estações instaladas em Itapipoca e Acaraú deverão continuar produzindo informações que permitirão acompanhar as transformações ambientais ao longo do tempo.
A iniciativa busca, portanto, não apenas monitorar o clima, mas fortalecer a capacidade das próprias comunidades Tremembé de produzir conhecimento, planejar respostas e preservar seus territórios diante das mudanças climáticas.